Valorização dos imóveis no Lago Norte superou 300% em dois anos
Diego Amorim - Correio Braziliense
Os espaços ainda desocupados no Centro de Atividades são cobiçados pelas construtoras e os pequenos comerciantes se rendem à pressão do capital. Em 2011, o local deverá ganhar mais 15 prédios
| Breno Fortes/CB/D.A Press |
| Desde os anos 1980, o CA do Lago Norte, criado para abrigar comércio e moradia, passou a ser procurado por solteiros e recém-casados. Com o aumento da demanda, o metro quadrado subiu de R$ 2,3 mil para R$ 10 mil |
19/11/2010 - O Centro de Atividades (CA) do Lago Norte, pensado para concentrar o comércio do bairro nobre, entrou na mira de construtoras e se transformou em mais uma área residencial de luxo de Brasília. Cerca de 6 mil pessoas vivem em lofts e apartamentos de, no máximo, 100m². A previsão é que pelo menos 15 novos prédios sejam erguidos até o fim de 2011 em terrenos espalhados pelas 11 quadras do CA. A valorização dos imóveis, nos últimos dois anos, ultrapassa os 300%. O preço médio do aluguel, turbinado com a chegada do shopping Iguatemi, dobrou no mesmo período.
Assim como no Setor de Oficinas Sul, empresas da construção civil e investidores se apressam na compra de lotes ainda ociosos no CA do Lago Norte. As negociações para arrematar terrenos já construídos envolvem cifras milionárias e vale-apartamentos. A maioria das oficinas que existiam no local — algumas até há mais de 15 anos — virou canteiro de obras. Outras estão com data marcada para fechar as portas. Em meio a esqueletos de prédios, uma ou outra loja, principalmente do ramo de material de construção, tenta resistir às propostas.
Pressão
Lotes de 400m² chegam a ser cortejados por R$ 2 milhões. Loren Garcia Pinheiro, 60 anos, dono de uma oficina no CA desde 2005, sabe que mais cedo ou mais tarde terá de abandonar o negócio. “É a lei do mercado. Manda quem pode, obedece quem tem juízo”, comenta o empresário, que paga R$ 2,1 mil pelo aluguel do espaço. Ele conta que, por pouco, o proprietário não cedeu o terreno para uma construtora este ano. “Mas é questão de tempo é para que isso ocorra”, acredita Pinheiro. Ele investiu R$ 18 mil na oficina. Se precisar entregar as chaves, avisa que vai lutar por esse dinheiro na Justiça.
Na frente do estabelecimento de Pinheiro, serão construídos um balão e uma praça. Três oficinas — erguidas em área pública anos atrás — terão de sair do meio do caminho. A notificação da Agência de Fiscalização do Distrito Federal (Agefis) já chegou. “No nosso caso, não tem conversa: vamos ter que ir embora mesmo”, diz Antônio Augusto Fontenele, 41 anos, dono de uma das lojas com os dias contados. “Só acho que a gente merecia um outro lugar para trabalhar. Essa guerra dos grandes contra os pequenos é desleal”, completa ele, depois de reconhecer que as oficinas estão em local irregular.
Oficialmente, o CA nasceu no fim da década de 1980, para abrigar atividades econômicas da Península Norte. Não estavam excluídas residências, mas esse não era o foco. De lá para cá, diversas modificações no gabarito abriram brechas para que a área se concretizasse como setor habitacional. A liberação de prédios com até cinco andares animou o mercado imobiliário. Os apartamentos projetados em empreendimentos modernos atraíram, principalmente, solteiros e recém-casados, a maioria servidores públicos. A população do CA já corresponde a 20% do total de moradores do Lago Norte.
Lista de espera
O adensamento provocou uma supervalorização dos imóveis. No condomínio mais luxuoso do CA, onde há 465 unidades divididas em seis blocos, o preço do metro quadrado saltou de R$ 2,3 mil para R$ 10 mil nos últimos dois anos, diferença de 334%. Um apartamento de 50m², comprado na planta por não mais do que R$ 150 mil, chega a valer R$ 420 mil. O aluguel, a R$ 1,3 mil em 2008, hoje custa até R$ 2,5 mil. “Foi o melhor investimento da minha vida”, define a servidora pública Nonita Leite, 48 anos, moradora e síndica do complexo residencial.
A procura é tanta por um espaço no CA que os prédios precisaram montar listas de espera para aluguel e compra. Na expectativa de que a região prospere, Ricardo de Araújo, 34 anos, abriu uma loja de conveniência no térreo de um prédio misto, com salas comerciais e quitinetes. “Este lugar promete. A gente sabe que não vai parar de chegar gente nova”, justifica. Aos poucos, o comércio começa a se estruturar no CA: há lavanderias, pet shops, escolas de inglês, lojas de roupas e supermercado. Falta, no entanto, serviços básicos, como farmácia e padaria.
Empresàrios são clientes no CA
O Iguatemi abriu as portas em março deste ano. A previsão de faturamento no primeiro ano é de R$ 250 milhões. Empresários do shopping estão entre os clientes que apostam na valorização do CA e, por isso, têm adquirido imóveis no local.
Demanda força transformação
No mês passado, o Correio mostrou como a mudança de destinação também transformou a cara do SOF Sul. Mais da metade dos cerca de 300 terrenos do local está vendida ou em fase de negociação. Um lote de 200 m² que há um ano valia no máximo R$ 300 mil quintuplicou de preço e chega a custar R$ 1,5 milhão. Os aluguéis na região saltaram, em média, 30%, variando de R$ 800 a R$ 6 mil.
Mais luz nas ruas
A administração do Lago Norte divulgou ontem que o CA passará a ter um cuidado especial por parte da Companhia Energética de Brasília (CEB). Moradores do setor reclamam da falta de iluminação pública. Algumas ruas ficam completamente escuras durante a noite.
Três perguntas para Vicente Magalhães, administrador do Lago Norte:
O Centro de Atividades perdeu sua vocação original?
O CA foi planejado para abrigar comércio e residências. Era para ser um misto de atividades. O que ocorreu é que, ao longo do tempo, a pressão demográfica levou muitas pessoas a transformar as salas comerciais em quitinetes. Foi daí que surgiu o desvirtuamento do espaço.
O Lago Norte tem estrutura para suportar esse adensamento geográfico?
O bairro não foi pensado para abrigar tantos moradores. Existe uma pressão enorme sobre os serviços de energia, água e esgoto. Se isso (o crescimento do CA) não for controlado, haverá um colapso. No caso de energia, já há uma dificuldade muito grande para atender a demanda. Estacionamento é outro problema, sem falar no trânsito.
O boom no CA tem força para retomar a discussão sobre a segunda ponte?
Na verdade, o Lago Norte hoje não tem ponte. A do Bragueto atende a todo o lado norte do Distrito Federal. Com mais pessoas trabalhando e vivendo aqui, essa demanda do CA pode criar os elementos necessários para que se concretize a ponte que ligará a QL 8/QL 10 até a L4 Norte, na altura na Concha Acústica. A licença ambiental para a construção já foi solicitada.
Assim como no Setor de Oficinas Sul, empresas da construção civil e investidores se apressam na compra de lotes ainda ociosos no CA do Lago Norte. As negociações para arrematar terrenos já construídos envolvem cifras milionárias e vale-apartamentos. A maioria das oficinas que existiam no local — algumas até há mais de 15 anos — virou canteiro de obras. Outras estão com data marcada para fechar as portas. Em meio a esqueletos de prédios, uma ou outra loja, principalmente do ramo de material de construção, tenta resistir às propostas.
Pressão
Lotes de 400m² chegam a ser cortejados por R$ 2 milhões. Loren Garcia Pinheiro, 60 anos, dono de uma oficina no CA desde 2005, sabe que mais cedo ou mais tarde terá de abandonar o negócio. “É a lei do mercado. Manda quem pode, obedece quem tem juízo”, comenta o empresário, que paga R$ 2,1 mil pelo aluguel do espaço. Ele conta que, por pouco, o proprietário não cedeu o terreno para uma construtora este ano. “Mas é questão de tempo é para que isso ocorra”, acredita Pinheiro. Ele investiu R$ 18 mil na oficina. Se precisar entregar as chaves, avisa que vai lutar por esse dinheiro na Justiça.
Na frente do estabelecimento de Pinheiro, serão construídos um balão e uma praça. Três oficinas — erguidas em área pública anos atrás — terão de sair do meio do caminho. A notificação da Agência de Fiscalização do Distrito Federal (Agefis) já chegou. “No nosso caso, não tem conversa: vamos ter que ir embora mesmo”, diz Antônio Augusto Fontenele, 41 anos, dono de uma das lojas com os dias contados. “Só acho que a gente merecia um outro lugar para trabalhar. Essa guerra dos grandes contra os pequenos é desleal”, completa ele, depois de reconhecer que as oficinas estão em local irregular.
Oficialmente, o CA nasceu no fim da década de 1980, para abrigar atividades econômicas da Península Norte. Não estavam excluídas residências, mas esse não era o foco. De lá para cá, diversas modificações no gabarito abriram brechas para que a área se concretizasse como setor habitacional. A liberação de prédios com até cinco andares animou o mercado imobiliário. Os apartamentos projetados em empreendimentos modernos atraíram, principalmente, solteiros e recém-casados, a maioria servidores públicos. A população do CA já corresponde a 20% do total de moradores do Lago Norte.
Lista de espera
O adensamento provocou uma supervalorização dos imóveis. No condomínio mais luxuoso do CA, onde há 465 unidades divididas em seis blocos, o preço do metro quadrado saltou de R$ 2,3 mil para R$ 10 mil nos últimos dois anos, diferença de 334%. Um apartamento de 50m², comprado na planta por não mais do que R$ 150 mil, chega a valer R$ 420 mil. O aluguel, a R$ 1,3 mil em 2008, hoje custa até R$ 2,5 mil. “Foi o melhor investimento da minha vida”, define a servidora pública Nonita Leite, 48 anos, moradora e síndica do complexo residencial.
A procura é tanta por um espaço no CA que os prédios precisaram montar listas de espera para aluguel e compra. Na expectativa de que a região prospere, Ricardo de Araújo, 34 anos, abriu uma loja de conveniência no térreo de um prédio misto, com salas comerciais e quitinetes. “Este lugar promete. A gente sabe que não vai parar de chegar gente nova”, justifica. Aos poucos, o comércio começa a se estruturar no CA: há lavanderias, pet shops, escolas de inglês, lojas de roupas e supermercado. Falta, no entanto, serviços básicos, como farmácia e padaria.
Empresàrios são clientes no CA
O Iguatemi abriu as portas em março deste ano. A previsão de faturamento no primeiro ano é de R$ 250 milhões. Empresários do shopping estão entre os clientes que apostam na valorização do CA e, por isso, têm adquirido imóveis no local.
Demanda força transformação
No mês passado, o Correio mostrou como a mudança de destinação também transformou a cara do SOF Sul. Mais da metade dos cerca de 300 terrenos do local está vendida ou em fase de negociação. Um lote de 200 m² que há um ano valia no máximo R$ 300 mil quintuplicou de preço e chega a custar R$ 1,5 milhão. Os aluguéis na região saltaram, em média, 30%, variando de R$ 800 a R$ 6 mil.
Mais luz nas ruas
A administração do Lago Norte divulgou ontem que o CA passará a ter um cuidado especial por parte da Companhia Energética de Brasília (CEB). Moradores do setor reclamam da falta de iluminação pública. Algumas ruas ficam completamente escuras durante a noite.
Três perguntas para Vicente Magalhães, administrador do Lago Norte:
O Centro de Atividades perdeu sua vocação original?
O CA foi planejado para abrigar comércio e residências. Era para ser um misto de atividades. O que ocorreu é que, ao longo do tempo, a pressão demográfica levou muitas pessoas a transformar as salas comerciais em quitinetes. Foi daí que surgiu o desvirtuamento do espaço.
O Lago Norte tem estrutura para suportar esse adensamento geográfico?
O bairro não foi pensado para abrigar tantos moradores. Existe uma pressão enorme sobre os serviços de energia, água e esgoto. Se isso (o crescimento do CA) não for controlado, haverá um colapso. No caso de energia, já há uma dificuldade muito grande para atender a demanda. Estacionamento é outro problema, sem falar no trânsito.
O boom no CA tem força para retomar a discussão sobre a segunda ponte?
Na verdade, o Lago Norte hoje não tem ponte. A do Bragueto atende a todo o lado norte do Distrito Federal. Com mais pessoas trabalhando e vivendo aqui, essa demanda do CA pode criar os elementos necessários para que se concretize a ponte que ligará a QL 8/QL 10 até a L4 Norte, na altura na Concha Acústica. A licença ambiental para a construção já foi solicitada.
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